A Colina Histórica se prepara para um reencontro que transcende as quatro linhas. Nesta quinta-feira, São Januário não será apenas palco para mais uma partida entre Vasco e Palmeiras; será o cenário da reestreia de Renato Gaúcho no comando técnico cruzmaltino. E a aura que paira sobre o gramado é um misto potente de nostalgia e urgência. Vinte anos se passaram desde a primeira passagem do ídolo, um período que gravou na memória vascaína a maior vitória em casa sobre o alviverde paulista: um impiedoso 3 a 0 pelo Brasileirão de 2006.
O ex-meia Morais, coração vascaíno e protagonista daquela tarde gloriosa, revive em entrevista ao ge a letalidade de um time que, munido de afirmação, trucidou o Palmeiras. "O Vasco foi letal. Quando teve as oportunidades, fez", recorda o camisa 10, que, em meio a risos e alguma amnésia seletiva, lembra de seu próprio gol de pênalti, uma "pancada no meio", e até brinca com o amigo Amaral sobre um gol esquecido do volante. Amaral abriu o placar, Morais ampliou, e Leandro Amaral fechou a conta, também de pênalti. A festa foi completa, inclusive com a torcida zombando de Edmundo, que, vestindo a camisa palmeirense, desperdiçou uma penalidade na sua velha casa, selando o icônico grito "Ah, é Edmundo!".
Mas a história de Renato com o Vasco de 2005/2006 é bem mais profunda que um placar dilatado. "Se o Renato não chega em 2005, a gente caía", sentencia Morais, sem rodeios. Aquele era um Vasco à deriva, afundado na tabela, sem contratações e com a corda no pescoço. O técnico multicampeão chegou como um salva-vidas, transformando a "sobrevivência" de 2005 na campanha de afirmação de 2006. Com um sexto lugar no Brasileirão, a um ponto da Libertadores, e uma final de Copa do Brasil, Renato forjou uma equipe coesa, resiliente e com identidade, mostrando uma capacidade de ajuste e leitura de jogo que calava as críticas à sua persona.
O tempo, porém, é um senhor implacável, e a realidade do Vasco de hoje é brutalmente diferente. Renato Gaúcho retorna a São Januário para encontrar o clube na lanterna do Campeonato Brasileiro, com apenas um ponto em quatro rodadas. Morais, com a franqueza de quem conhece a Colina e o futebol, reconhece a importância do ídolo, mas dispara um alerta contundente: "O Vasco precisa contratar também para não colocar tanta pressão em cima dele." O ex-meia lembra a saída de nomes como Vegetti e Rayan, que juntos somaram dezenas de gols, e crava: "Senão pode botar dois Renatos ali que não dá jeito."
A verdade, meus amigos do Central do Placar, é que o romantismo do retorno de Renato Gaúcho a São Januário é uma cortina de fumaça que mal consegue esconder a dura e crua realidade vascaína. Morais foi cirúrgico: a lenda está de volta, sim, mas ele não tem superpoderes para operar milagres sozinho. Sem reforços de peso, sem um ataque que faça valer a mística da camisa, a missão de Renato no Vasco será ingrata, para dizer o mínimo. É fácil aplaudir o passado, mas o presente exige atitude e investimento. Caso contrário, a euforia da nostalgia se transformará rapidamente no desespero de um time que, mais uma vez, lutará contra o próprio destino, e nem a genialidade de dois Renatos será suficiente para evitar um desastre anunciado! A diretoria vascaína tem a obrigação moral de agir, e agir para valer, antes que o grito de socorro se torne um lamento irremediável.
CENTRAL DOPLACAR