Anderson Luiz de Carvalho, mais conhecido como Nenê, personifica a longevidade e a paixão inabalável pelo futebol. Aos 44 anos, o talentoso meio-campista não demonstra qualquer sinal de desaceleração, preparando-se para sua 27ª temporada profissional, agora sob as cores do Botafogo-PB. Longe de considerar a aposentadoria, o veterano, que se inspira no incansável Cristiano Ronaldo, traça novos e ambiciosos objetivos, enquanto compartilha histórias notáveis de uma carreira repleta de lances geniais e decisões marcantes.
A trajetória de Nenê é um testemunho de rara persistência. Com quase 300 gols marcados ao longo da carreira – um feito extraordinário para um jogador de meio-campo –, ele se orgulha de cada bola na rede, um catalisador para a dedicação diária. "Pouquíssimos meias alcançam a marca de 300 gols na carreira", destaca o jogador, enaltecendo a exclusividade de seus números. A admiração por Cristiano Ronaldo, que aos 41 anos segue atuando em alto nível pelo Al-Nassr e persegue o milésimo gol da carreira, serve de motor para o brasileiro. "É um dos motivos para eu estar dando o meu máximo a cada dia", completa.
Em uma entrevista exclusiva ao ge, Nenê revisitou momentos cruciais de sua extensa jornada. Um dos episódios mais lembrados envolveu um incidente com Zlatan Ibrahimovic durante um treino do Paris Saint-Germain. O brasileiro, que era a grande referência do clube antes da chegada do sueco, minimiza a polêmica da camisa 10: "Falaram que ele queria a minha camisa e eu não deixei. Foi algo que veio de fora, porque ele nunca tinha usado a 10. Ele sempre usou a 9 e a 11 no Milan. O cara agora do time é o Ibra e não é mais o Nenê, mas ele realmente nunca veio falar e não acho que não ia ter problema se falasse. Mas, assim, só pegou a 10 quando eu saí, né?", diverte-se. Sua passagem pelo PSG foi memorável, com 48 gols e 16 assistências em 112 jogos, coroada pela conquista da Ligue 1 em 2012-13, o primeiro título nacional do clube em mais de duas décadas.
De volta ao Brasil em 2015, Nenê enfrentou uma encruzilhada profissional que definiria parte de sua identidade no futebol nacional. Teve propostas de diversos clubes, incluindo o Corinthians, que liderava o Campeonato Brasileiro com um elenco estrelado. Contudo, uma combinação de fé e o desejo por um desafio genuíno o levou a escolher o Vasco da Gama, então mergulhado na zona de rebaixamento. "Eu balancei, eu iria para o Corinthians, não conhecia nada do Vasco", confessa. A decisão se mostrou acertada: no Rio de Janeiro, Nenê se tornou um ídolo incontestável, ajudando o clube em dois acessos à Série A e na conquista invicta do Campeonato Carioca de 2016, o último título cruzmaltino até os dias atuais. "Se eu fosse para o Corinthians, eu ia ter sido mais um jogador só. Eu não ia ter sido marcado na história do Corinthians, por exemplo, e no Vasco eu sou um cara marcado", explica, com a gratidão visível pelo carinho da torcida que o transformou em vascaíno.
A notoriedade de Nenê transcende os gramados. Apelidado de "vovô garoto" e com a famosa "Chapada do Nenê" eternizada em memes e jogadas, o meia mantém uma conexão genuína com as novas gerações e seus próprios companheiros de equipe. Apesar de grandes atuações e momentos de brilho, a falta de um título com o São Paulo, onde protagonizou jogos marcantes, ainda figura como um lamento em sua rica trajetória.
Agora, no Botafogo-PB, Nenê abraça um novo e ambicioso projeto. Sob a gestão de Gustavo Félix, dono da SAF do Belo, ele se posiciona como a principal referência na campanha rumo à Série B. Ousado, o meia não se contenta apenas com a segunda divisão e já vislumbra a elite do futebol brasileiro. "Eu sou um cara muito competitivo, nada é impossível no futebol. Eu já aprendi que não dá para me programar em nada, porque eu já estou programando minha despedida já faz anos", revela, com um sorriso. Sua adaptação é facilitada pela personalidade tranquila e brincalhona, que ele utiliza para quebrar o gelo nos novos ambientes e liderar pelo exemplo.
O segredo para uma carreira tão extensa e bem-sucedida, segundo Nenê, não se resume a um único fator. "Primeiro de tudo, é a paixão, o amor que eu tenho pelo que eu faço, de você estar em um lugar que você tem aquela paz de que nasceu para fazer aquilo. A disciplina, sono, sem bebida alcoólica, se você não bebe durante vários anos ajuda alimentação", enumera. A ausência de lesões graves e cirurgias, somada à experiência em grandes clubes europeus como o PSG e o Mallorca, também foram determinantes. Brincando, o meia afirma que "o metabolismo é só na idade, na carcaça estou com uns trinta e poucos", ilustrando sua energia contagiante.
Para Nenê, o maior troféu conquistado ao longo de mais de mil jogos não está nas taças. "Ter o respeito e o carinho do torcedor brasileiro vale mais que qualquer taça", finaliza, ciente do legado de admiração e gratidão que construiu. Neste sábado, o veterano tem a oportunidade de adicionar mais um título à sua vitoriosa carreira: o Campeonato Paraibano, onde o Botafogo-PB entra em campo na final com uma vantagem de 2 a 1 sobre o Sousa. A busca por novos desafios e a inextinguível chama da paixão pelo futebol continuam a guiar os passos de Anderson Luiz de Carvalho, o Nenê, um jogador que desafia o tempo e escreve capítulos dourados em sua própria lenda.
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