Hoje, as arquibancadas prometem um espetáculo de bola rolando, com clubes buscando seus objetivos no Brasileirão. Mas quem se importa com a frieza do placar quando o passado carrega cicatrizes de uma batalha épica? Há exatos 40 anos, Remo e Fluminense protagonizaram um embate que foi muito além das quatro linhas, uma verdadeira guerra que a história do futebol, por vezes, prefere esquecer. Prepare-se, porque o Central do Placar vai revirar essa ferida e mostrar que 1 a 1 nem sempre é só 1 a 1.

A bomba-relógio começou a ticar bem antes de a bola rolar no antigo Mangueirão, pela Copa Brasil de 1986. O Fluminense, após um insosso 0 a 0 com o Sampaio Corrêa no Maracanã, viu seu meio-campista Renê soltar uma declaração que ecoaria por décadas. Em entrevista à Rádio Globo, o jogador, sem papas na língua, insinuou que o time maranhense teria apelado para o doping para suportar o ritmo do Tricolor. “Algumas equipes não têm preparo físico para acompanhar o ritmo... e acabam usando artifícios, como o Sampaio Corrêa. Achei importante denunciar isso publicamente”, disparou Renê, completando que visavam mais o corpo do que a bola.

A faísca virou incêndio quando a declaração de Renê, distorcida ou não, chegou a Belém. A insinuação de que o Remo poderia recorrer a "artifícios" para enfrentar o Fluminense foi interpretada como uma grave acusação de dopagem, transformando a partida em um barril de pólvora pronto para explodir. O presidente do Leão, Hamilton Guedes, reagiu furioso, ameaçando processar o jogador. O medo da violência pairava no ar, e o que era um jogo de futebol se transformou num teste de nervos.

O clima, que já era infernal, atingiu o ponto de ebulição antes mesmo do apito inicial. Chegando em Belém, o Fluminense teve que mudar o local de seu treino às pressas. Um grupo de torcedores azulinos, munidos de faixas homofóbicas direcionadas a Renê, invadiu o estádio do Remo, transformando o espaço que deveria ser de esporte em palco de intolerância. Uma demonstração vergonhosa de fanatismo que marcou a prévia de um dos confrontos mais tensos da história.

No dia do jogo, a bola mal podia rolar em paz. Cada toque de Renê era acompanhado por uma sonora vaia e uma saraivada de xingamentos. O Fluminense, favorito no papel, não conseguiu se impor. E quando Valbert, nos acréscimos, empatou a partida em 1 a 1 para o Tricolor, em um lance que o Remo jurou ter sido impedido, o caos se instalou de vez. A frustração, a raiva e o ódio acumulados explodiram em uma chuva de objetos atirados no gramado.

O apito final não trouxe trégua, mas sim o clímax da barbárie. Os jogadores do Fluminense foram obrigados a deixar o campo sob uma verdadeira chuva de garrafas, que por pouco não atingiram os atletas. Um torcedor chegou a ser preso, mas a imagem de jogadores fugindo de projéteis ficou gravada na memória de quem presenciou. Não foi apenas um empate, foi uma fuga por segurança, uma mancha indelével na história dos clubes.

Hoje, 40 anos depois, os clubes se reencontram em um cenário "ameno", com foco nas tabelas e nas aspirações de cada um. O Fluminense, buscando estabilidade na Série A, e o Remo, tentando se firmar na B. Mas, me digam, será que essa "paz" é real ou apenas uma maquiagem conveniente para um futebol que, por vezes, esquece sua própria essória? É fácil falar de fair play e respeito nos dias de hoje, quando o policiamento e as sanções são rígidos. Mas a verdade nua e crua é que episódios como o de 1986 revelam uma face selvagem e visceral do torcedor, uma paixão desmedida que pode transbordar para o ódio e a violência em questão de segundos. E fico me perguntando: será que o futebol, ao tentar polir demais essa paixão, não está tirando um pouco da alma que o torna tão eletrizante? Ou será que nossa sociedade, por mais que evolua, ainda carrega consigo a semente da intolerância que, em ambientes de alta rivalidade, como um jogo de futebol, encontra o terreno fértil para florescer em manifestações tão deploráveis quanto o doping, a homofobia e a guerra de garrafas? Acredito que essa "paz" é frágil e que, no fundo, a essência humana, para o bem e para o mal, nunca muda.