No universo do futebol, onde a paixão e a intensidade frequentemente mascaram as vulnerabilidades pessoais, o técnico Luis Zubeldía, à frente do Fluminense, rompeu o silêncio para compartilhar episódios marcantes de sua trajetória recente. Em uma entrevista reveladora ao jornal argentino Olé, o comandante tricolor ofereceu uma visão franca sobre um susto de saúde inesperado e a busca contínua por aprimoramento em sua conduta à beira do campo, demonstrando uma maturidade e autoconsciência que merecem destaque.

A rotina intensa do futebol foi bruscamente interrompida para Zubeldía no início do ano, quando um diagnóstico surpreendente o afastou do trabalho por duas semanas. O treinador, de apenas 45 anos, descobriu a necessidade de implantar quatro stents, após exames de imagem detectarem obstruções em suas artérias coronárias. "Foi um choque. Eu não tinha noção de que tinha quatro stents aos 45 anos. Foi totalmente inesperado", confessou Zubeldía, destacando, contudo, o lado positivo da detecção precoce do problema. Fatores como colesterol elevado e predisposição genética foram apontados como causas, e o técnico admitiu receber alertas constantes de seu cardiologista sobre a intensidade com que vivencia o futebol.

Além dos desafios físicos, Zubeldía também abriu-se sobre sua conhecida e, por vezes, explosiva conduta à beira do gramado. Reconhecendo o histórico de embates com a arbitragem – uma característica que, segundo ele, remonta aos seus tempos de jogador – o treinador revelou ter procurado o auxílio de um psicólogo esportivo, Marcelo Roffé, especialista na área. "Gesticulo muito e acabo passando dos limites", admitiu. Sua análise sobre o comportamento é perspicaz: ele entende que a reclamação, embora pareça uma tentativa de influenciar o árbitro, é, na verdade, uma expressão de um desabafo ou uma tentativa equivocada de "ajudar o time". Contudo, a consciência é clara: "Embora eu saiba com certeza que não ajuda em nada. Pelo contrário: atrapalha." No Fluminense, sua disciplina tem sido exemplar, com apenas uma expulsão, contrastando com um histórico mais carregado em seu antigo clube, o São Paulo.

A conversa também se estendeu para uma análise profunda do cenário do futebol brasileiro, comparando-o à dinâmica argentina. Zubeldía elogiou a qualidade técnica superior e as jogadas que proporcionam mais espetáculo para o público no Brasil. No entanto, apontou o outro lado da moeda: a transformação das partidas em cenários de alta pressão, onde a imprevisibilidade domina e o desgaste mental é imenso. "Emocionalmente, é uma montanha-russa", descreveu, ressaltando a dificuldade de manter um nível consistente de jogo e resultados positivos diante de um calendário tão apertado e da pressão externa exacerbada. A necessidade de uma "força mental muito grande para se reinventar em curtos espaços de tempo" é, para ele, um dos maiores desafios.

Sobre o futuro e um possível retorno à sua terra natal, o técnico foi categórico ao afirmar que o momento é de total dedicação ao Fluminense. Ele relembrou, inclusive, uma oportunidade anterior com a seleção do Equador enquanto estava no São Paulo, optando por honrar seu compromisso contratual. Zubeldía se vê como "um treinador diferente de antes", que se redefine constantemente, mantendo, contudo, a sua essência.

Luis Zubeldía emerge da entrevista como um profissional não apenas talentoso e estratégico, mas profundamente humano. Sua capacidade de expor fragilidades, aprender com elas e buscar aprimoramento contínuo reforça sua estatura como líder e inspiração, tanto dentro quanto fora dos gramados. Seu compromisso inabalável com o Fluminense e sua própria evolução são a prova de um profissional sério e dedicado, características que a Central do Placar faz questão de enaltecer.